-->Primeiro, impõem-se um pequeno reparo:
.a façanha não foi de um cidadão pindamonhangabense, mas de um legítimo filho da “boa terrinha portuguesa”.
Nascido “Joaquim José Eugênio”, no ano de 1900, numa aldeia rural do Alentejo a qual deixou aos 14 anos em companhia dos pais rumo ao Brasil, aonde veio a falecer aos 95 anos aqui em Pindamonhangaba. Figura lendária, personagem de muitas histórias e “causos” ainda vivos no imaginário
popular, deixou sete filhos (dois já falecidos), e um sem número de netos e bisnetos espalhados na sua maioria pelos bairros de Pindamonhangaba. Foi, “o Seu Joaquim”, até aonde minha memória alcança, sempre conhecido por Seu Joaquim da Figueira, e Figueira, exatamente pelos laços que por mais de meio século o prenderam à famosa e centenária árvore, que, se ainda deslumbra nossos contemporâneos foi por obra e graça de sua “solitária”, mas corajosa e intransigente defesa, beirando algumas vezes a temeridade de atos incomuns para o seu tempo, quando ainda não se dava muito destaque, e atenção menor ainda, à defesa do meio-ambiente.
Registre-se, em tempo, que a monumental figueira salvou-se em parte, também, por ter raízes postas em propriedade da família Joaquim José Eugênio, aonde continua, e com no
vo e feroz guardião (sucessor) na pessoa de seu filho Joaquim Eugênio, valente como o pai, e curiosamente também conhecido como Joaquim da Figueira, que poderia muito bem ser, pelo “bloguito”, proclamado Guardião da Figueira II, com direito até a um diploma correspondente e, por que não, hereditário
O trabuco
Rigorosamente, a bem da verdade, tratava-se de uma bem cuidada espingarda de caça, dotada de dois canos. Foi com esta, que seu Joaquim da Figueira quase matou de susto meia dúzia de desavisados funcionários de uma estatal de energia elétrica quando esses, sem maiores cuidados, estacionando uma viatura junto à majestosa figueira descarregavam ferramentas para uma “poda” ampla e suficiente para oferecer com segurança passagem para uma linha de transmissão.
Alertado sobre no interior de sua residência, bastante próxima, onde mantinha inclusive um movimentado
armazém de “secos e molhados”, sobre a incomum movimentação, seu Joaquim saiu para tomar conhecimento do que estava realmente acontecendo. Interrogando os despreocupados funcionários sobre o pretendiam com aquele aparato todo, foi informado sobre a necessária “remoção parcial” da gigantesca árvore que se interpunha exatamente no alinhamento da passagem da linha de transmissão. Quem viu e ouviu, conta que aconteceu como se um raio tivesse atingido seu Joaquim, pois, pondo-se em disparada foi até o interior de sua residência e no mesmo embalo retornou com sua arma. A poucos metros do assustado grupo de funcionários, que não havia ainda entendido bem o que estava acontecendo, apontou o “trabuco” retraindo com o polegar direito os dois dispositivos (cães) que engatilham a arma deixando-a em condições de tiro.
Foi ai que o famoso discurso, contado, diga-se a bem da verdade, de muitas maneiras, mas a que sei e que pelo próprio autor me foi contada, assim se deu “aproximadamente”:
“Ouçam bem gajos filhos de uma cadela, à sombra desta figueira, de passagem para a Vila próxima, descansou Sua Majestade Dom Pedro de Orléans e Bragança, Pedro I, Imperador do Brasil! Ele se foi, não voltará, mas a sombra que lhe deu abrigo ficou, ficou e ficará, porque a árvore que lhe dá causa permanecerá em pé, mesmo que apenas até que a morte venha cá me buscar”.
E ai veio o pior e mais assustador, pois, após “passear” horizontalmente a mira da arma de um extremo ao outro do apavorado grupo, concluiu o famoso discurso com uma aterradora ameaça:
“quem não tiver pela vida amor nenhum, que se ponha a tocar numa única folha deste pedaço de história, pois se não temos cá um brasileiro capaz de defender o que por direito lhe pertence, este português por ele o fará...”.
Fim da história: sendo o fato relatado à chefia, decidiu-se, até pelo
inusitado do acontecido e considerando tratar-se de propriedade aberta, mas em verdade, particular, que a dita linha de transmissão deveria sofrer (diplomaticamente) um pequeno desvio, contornando a gigantesca figueira. Desvio? Aconteceu de fato? Bem, é só conferir, está lá!...
Bem, esta foi a história que me contou o próprio lusitano Joaquim José Eugênio, o lendário Joaquim Português... Quem outra versão tiver pra contar, que o faça, pois o “bloguito” do amigo Serjão, entendo, tem tanto espaço quanto coração de mãe!
Ah, ia me esquecendo, a bela figueira agora faz parte do Patrimônio Histórico através da Lei Municipal nº ........
José Raul Machado Ribas