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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Faz cem anos que é nóis mano!

Edgard de Oliveira Barros

Sim, é nóis, mano. Juro que eu não queria tocar no assunto, mas a alma pede e o coração lateja. Falando, a dor vai embora e, sendo assim, que Deus nos proteja. Afinal já tomei sol, já tomei chuva. Já gelei no calor da partida e suei no frio da alma quando o calor do adversário atacava. Já fiquei no sereno e enfrentei tempestades nas gerais e arquibancadas da vida.
E chovia que Deus mandava. Já vi ganhar, já vi perder, já vi sorrir, já vi sonhar. Já vi gritar, já vi chorar e já chorei de dor. Mas, não se doa, já ri muito. Sofri de amor e vi sofrer, porque a gente sofre por amar, mas logo ri por ver tanta gente amar também, cantar, adorar, sublimar. A gente sai chorando e cantando na vitória. E até na derrota sem fim.

É nós mano, nóis si sustenta na dor! Já vi Corinthians de branco, já vi Corinthians de preto, já vi cor de sangue da luta. Já vi cor de lama, cor do amor e roxo da paixão. Eu vejo Corinthians desde que sou Corinthians, e se não nasci Corinthians foi porque não sabia. Ou nada entendia. Deus do céu! Quantas vezes eu vi Corinthians!
Até quando a televisão era da nossa cor, bem preto no branco. A gente ganhava, a gente perdia. A gente vivia.Criança, eu ouvia o jornaleiro passar e gritar pelas ruas do Bom Retiro: “Olha a Gazeta! Olha o “gor” do “Bartazar”, o “rompeculo dos goleiro nacionar...”, dizia.

Onde anda o jornaleiro, onde anda a Gazeta, onde anda o Baltazar, onde anda o Bom Retiro? Não importa, o Corinthians anda e está aí na vida de todos eles. Vai ver que hoje está tudo em festa. Vai ver todo mundo tem na testa um pedaço de pano preto e branco para lembrar que o Timão é tudo isso e mais um pouco.

Faz cem anos que é nóis mano! I I

Sortudo que eu sou, já vivi perto da casa onde o Corinthians nasceu. Vivi mas não sabia, nem me tocava de que ali era território sagrado. Ali tinha nascido um gigante. Eu já vi o Rivelino fazer gol a meio minuto de jogo, e bem do meio do campo, no nosso campo, antigo campo, o velho Parque que era de São Jorge.

Foi contra um América, não sei qual deles, não sei das quantas. Talvez da América inteira. Ou do mundo. A gente não gosta de ganhar de coisa pequena. Alguém deu um toque de lado, o Riva bateu de esquerda e mandou ver. Lembro que o goleiro ainda estava rezando o Padre Nosso. Só que o Padre nosso era mais forte. Um a zero no placar. Foi gol do Riva, do meio do campo, do meio do minuto, do primeiro minuto.
Porque a gente só conta o gol do Corinthians, o dos outros nunca vale.
É um pra nóis e o resto não interessa.

A não ser os do Pelé, que seja bendito, mas que tanto nos judiou. Acabou... Eu já gritei Corinthians até lá do outro lado do mundo, quando o Japão inteiro, acho eu, nem sabia, que o Corinthians existia. Foi num bar da Ginza, quanta lembrança, quanta lambança, quanto saquê, quanto Suntory, que era o whisky mais vendido no mundo, pelo menos naquele tempo.

Era um happy-hour bem comum, de todos os dias, de todos os costumes lá do lugar, do bar, bem cheio, até que o saquê me lembrou do Timão. E eu gritei: “Cóóóórinthia!” Solidários e alegres, os japoneses presentes beberam da minha alegria. E até gritaram comigo: “Cóóóórinthia, Cóóórinthia, Cóóóórinthia”. Acho que eles já sabiam o que faziam.
Era o ano de 1981. Depois, de lá para cá, o futebol cresceu muito até no Japão. E de lá como cá deve ter muito corinthiano por lá como tem por cá. Porque Corinthians é assim, onde quer que você vá, chegue logo e vá dizendo:

Deus ajude um corinthiano!”

e ajuda não há de faltar. Porque todo mundo pensa que a gente sofre, porque todo mundo diz que corinthiano é sofredor, porque todo mundo diz que tem dó dos sofredores, mas o mundo não sabe que a gente só sofre mesmo é de amores.
O Corinthians é o dó maior que o amor nos dá. Nunca me esqueço de um dia, velhos tempos de São Paulo, quando a Polícia chegava para colocar ordem na casa e pedia a todo mundo: “Se apresente e mostre documentos!”

Faz cem anos que é nóis mano! I I I

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E tinha um, pobrezinho, que nem documento tinha. E tinha um policial, muito bravo, muito famoso na época, que encarou o individuo e lhe perguntou: “Tú não tem nenhum papel no bolso que prove que tu existe?”. Ele mostrou um retrato de um time chamado Corinthians.

E o policial marrudo, mas apreciado: gritou, bem alto e bem forte pra todo mundo deixar passar: “Vai que tú é dos nossos, e dos nossos num precisa documento”. Quem sabe sabe que isso está na história. E nóis é assim, mano; nóis é solidário até na encrenca... Também não esqueço outro dia que eu e o Corinthians estávamos diante da minha segunda paixão, a grande Lusa do Canindé.
E o Raul Rodrigues, que na época era presidente da gloriosa Associação Portuguesa de Desportos, cheio de ciúmes me dizia: “Hoje tu te decides: ou és alvi-negro ou rubro-verde”. Naquela noite o Timão jogava contra a também minha Lusa no Canindé. O presidente Raul Rodrigues fez porque fez com que eu desse o pontapé inicial do jogo. Que tinha Sócrates, Vaguinho, Palhinha e todos mais, contra a minha Lusinha que já teve Djalma Santos, Brandãozinho, Enéas e Ivair.

Dei o pontapé pedido, o jogo começou e terminou dois a zero pro Timão. É nóis mano, que sempre adoramos a Lusa. A gente não perde, a gente sublima. A gente não chora, é cisco que cai no olho. A alma é mais forte, entende e acredita: amanhã é o nosso dia. Porque a gente sempre tem o amanhã. Correndo, batendo, apanhando, lutando, sofrendo e chorando a gente chegou onde está e já faz cem anos.
No meio de tanto riso e pouco siso, de tanta dor e melancolia, porque melancolia é sim um misto de tudo isso, mas, no fundo, é só alegria. Quer queiram, quer não, somos campeões de tudo, até do mundo que sem suspeita nos respeita. Ontem, anteontem, um dia destes, como todo dia, foi o dia do campeão dos centenários chegar no seu centenário. Teve festa no mundo.
O povo encheu o Anhangabaú. O povo encheu as ruas das cidades de todos os estados do país. Já se calculou e já se disse em alto e bom som que, estatisticamente somos mais de 15% de corinthianos entre todos os brasileiros. Para não falar mundialmente. Trinta milhões ou mais vibrando e cantando a mesma canção:

Corinthians, aqui tem um bando de loucos. Temos o tamanho de uma Argentina, por supuesto... E como dizem os porteños, si Diós no es corinthiano, com certeza ruega por nosostros.

É nóis, mano. Só nóis, mano, sempre nóis, mano.

Zezito,

Muitíssimo obrigado pelo envio de mais esta colaboração ao bloguito.

Um grande abraço.

Sérgio.