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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Se acalmar, respirar fundo, encontrar o equilíbrio...

Hoje pensei em marcar um horário com meu cabeleireiro para uma mudança radical, que estou certa ele me desaconselharia. Sou muito grata e leal à esses profissionais com seu trabalho indispensável no universo feminino. Futilidade??!! Fique sem fazer-lhes uma visita por alguns meses pra ver onde vai parar sua auto-estima. Hoje quem cuida das minhas madeixas é o meu amigo Ronaldo, mas durante muito tempo foi a cabeleireira Olga, até que ela se aposentasse. Olga tinha uma teoria interessante à respeito do cabelo feminino; dizia ela que as mulheres muito jovens necessitam de cabelos longos pra se sentirem femininas; quando alcançam o equilíbrio afetivo, profissional e emocional se transformam num Sansão às avessas, dizem adeus aos longos e cortam os cabelos. Cortar cabelos era a especialidade de Olga; eu costumava chamá-la de “Olga mãos de tesoura”,um verdadeiro perigo! Vê-la em ação me lembrava a frase de Willian Shakspeare “O meu corpo é meu jardim, minha vontade seu jardineiro”, para Olga; Seus cabelos são um jardim, minha vontade seu jardineiro.

Não sei se a teoria da minha antiga cabeleireira está certa, ou se eu vivo em constante desequilíbrio; já tive os cabelos longos, semi-longos, curtos, curtíssimos... em várias fases da vida, e os tenho usado semi-longos há algum tempo; de acordo com a teoria, num equilíbrio moderado. Porém... aprendi à duras penas que não se deve mudar a cor, o corte nem o comprimento dos cabelos quando se estiver excessiva; excessivamente infeliz ou feliz, excessivamente brava ou melancólica, excessivamente apaixonada ou decepcionada, excessivamente segura ou insegura...e outros excessivos que fazem parte da natureza humana....O risco de se arrepender também é excessivo! Meu conselho é se acalmar, respirar fundo, encontrar o equilíbrio, ainda que incompleto como o meu, e partir para a mudança....ou não. Se a sua vontade de mudança se fixar nos cabelos ou se eles correrem o risco de virarem o bode expiatório de suas mazelas ou insatisfações, esconda-os; faça um cabelo preso, amarre um lenço bonito...Quando vejo mulheres com “cabelos escondidos” me pergunto se estão insatisfeitas com suas madeixas, ou se estão excessivas. Hoje por exemplo tive uma vontade danada de cortar os cabelos bem curtinhos e pintá-los de roxo; fiz um coque, uma hora de esteira, banho morno pra frio e escrevi esta história....tempo suficiente para reencontrar meu moderado equilíbrio..... a vontade do curto e roxo passou e o motivo ou o excesso que me levou a desejar um cabelo tão diferente do meu...se acalmou, vejamos até quando......

Cortar os cabelos e pintá-los de roxo pode ser substituído por: Virar a mesa, rodar a baiana, viajar pra Conchinchina, mandar o chefe catar coquinho, a vizinha lamber sabão etc...


Rosa Marin Emed

Rosinha, obrigado pela generosidade. Abraços.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

AMOR E CHEIRO

 Na foto estão alguns dos 13 netos dos meus pais; mais de vinte anos separam as duas fotos em frente à casa deles. Hoje são 13 netos, 13 bisnetos e 3 tataranetos. Eles conheceram todos os netos e 8 bisnetos.

Acabei de ler um livro que se chama “Ishq e Mush”; uma história em que uma mãe em seu leito de morte, diz à sua filha:
_”Lembre-se; existem duas coisas que não podemos esconder:Ishq e Mushq. Amor e cheiro.”
       Dizem os entendidos que a memória olfativa é a mais rudimentar e visceral das memórias; o olfato é o primeiro órgão dos sentidos a se desenvolver ainda no útero materno. É a memória olfativa que nos remete às mais distantes lembranças, sejam elas boas ou más; de alegria ou de tristeza, de euforia, de dor, decepção, encanto ou desencanto, raiva, medo, saudade.....Por isso o cheiro que desagrada alguns, agrada outros. O odor está associado aos acontecimentos agradáveis ou desagradáveis das experiências vividas. Impossível ficar indiferente ao cheiro de terra molhada, ao perfume de uma flor, de madeira, de livro novo....Dizem até que a atração sensual depende do mushq dos parceiros, não do perfume usado mas do cheiro natural de cada um....Mushq se transformando em Ishq!
           O livro me lembrou uma visita que fiz à minha casa; não a casa onde moro que sem dúvida também  tem seu ishq e seu mushq, mas a casa que materialmente não me pertence, mas que sobrevive na minha memória e que lá será sempre minha, meu porto seguro mais visceral, como um útero que acolhe e protege; a casa onde adquiri meus primeiros valores e meus primeiros afetos. A lembrança mais antiga que tenho dela é de sua construção quando eu tinha menos de cinco anos. Seu Manoel foi o mestre de obras que veio de Marilia especialmente para construir as quatro casas dos quatro irmãos e sócios; eram oito irmãos, mas quatro trabalhavam juntos em uma sociedade que durou muitos anos. Duas casas idênticas e vizinhas na Avenida Brasil e outras duas também idênticas e vizinhas na Rua Rui Barbosa, numa das quais vivi os anos da infância e adolescência. Incrivelmente me lembro do Seu Manoel, já um homem idoso pra meus olhos de criança. Minha mãe fazia o almoço para os todos os operários que trabalhavam na casa, inclusive meu pai, e eu fui algumas vezes com ela levar as marmitas; era assim que se fazia naqueles anos na pequena Herculândia.
        Meu pai construiu sua casa em 1955, e quando digo construiu é literalmente; ele também pôs a mão na massa, e lá morou seus últimos cinqüenta anos. Foi nesses cinqüenta anos que a família toda construiu ali o que a casa tinha de melhor; seu ishq e seu mushq. Algumas casas parecem ter alma; alma feita de pedacinhos da alma das pessoas que nela viveram;  eu pude sentir a alma da casa quando fui visitá-la pela primeira vez, nove anos depois que meus pais partiram. Acreditei estar fortalecida o bastante para rever a casa que hoje é um centro médico. Na recepção onde era sua antiga sala, pedi permissão para entrar com o coração já aos saltos; as duas jovens que lá estavam me olharam com estranhamento; eu era uma intrusa invadindo seu local de trabalho, e por certo sentiram também o meu inevitável estranhamento; aquela não era mais a minha casa, mas o meu coração dizia que ali ainda restava um pouco da alma do meu lar.
   Foi na cozinha que desabei; ali senti todo o ishq e mushq em forma de dor e saudade. O cheiro que sobressaiu foi o do café forte que minha mãe fazia pra todos que atravessavam a soleira da porta; o café que minha mãe fazia e meu pai plantava....Senti fortemente  entrelaçados ishq e mushq da alma da casa despertando outros sentidos; e a memória auditiva me recordou dos risos e das conversas quando a família se reunia, geralmente na cozinha. Algumas vezes tenho dificuldade de recordar os traços do rosto dos meus pais, mas naquele momento não só os “vi”, como ouvi minha mãe com seu forte sotaque espanhol e meu pai assobiando como costumava fazer. A dor da saudade explodiu em soluços incontroláveis. Saudade deles que partiram, da proximidade dos irmãos que ali também cresceram, dos amigos e parentes que entravam e saiam como se estivessem em suas próprias casas, saudade da jovem que fui....

     Hoje a casa construída há mais de cinqüenta anos é um local de cuidados aos que estão fragilizados, e fico grata que seja assim, certamente outras pessoas sentem outros mushqs dentro dela, mas mesmo que a derrubem ela continuará em minha memória e no meu ishq , como o meu primeiro lar....

Rosa Marin Emed  

 Na foto estão alguns dos 13 netos dos meus pais; mais de vinte anos separam as duas fotos em frente à casa deles. Hoje são 13 netos, 13 bisnetos e 3 tataranetos. Eles conheceram todos os netos e 8 bisnetos.

Rosinha, muito obrigado pelo apoio ao bloguito, um grande abraço a você e boa semana.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Primavera se anunciando e a vida começa se enfeitar de flores e de cores ...


Primavera se anunciando e a vida começa se enfeitar de flores e de cores ... quiça de amores. As arvores recuperam o verde das folhas nos reafirmando que a vida continua, e que pode ser colorida como as flores da estação, embora o inverno ainda esteja se despedindo com dias escuros e chuvosos.
 Morei 18 anos numa chácara com muito verde; um bosque nos fundos da casa, uma horta e flores; mas quem anunciava de fato a primavera, eram dois pés de caquis. Nessa época tínhamos um grupo de amigos com os quais nos reuníamos uma vez por mês nos revezando como anfitriões. Cerca de dois anos depois de estarmos na chácara, numa das vezes que coube a mim receber o grupo de amigos, comentei que no inverno meus pés de caquis ficavam ressequidos e sem folhas, como se não tivessem mais vida, mas que na primavera floresciam mais fortes e mais verdes do que no ano anterior, prontos pra se encherem de frutos. Pouco depois, Eraldo um dos nossos amigos, se aproximou de mim e discretamente disse; ”_Você está muito triste e não importa o motivo; assim como teus pés de caquis no inverno, a dor nos fragiliza mas quando  vai embora, nos deixa mais fortes e mais sábios”.
Sábio era meu amigo Eraldo que entendia de invernos e primaveras da vida. Infelizmente Eraldo partiu precocemente há muitos anos; decerto Deus queria mais almas boas e sensíveis junto Dele. Desde então sempre que meu “inverno” me entristece, me lembro do meu amigo Eraldo e dos meus pés de caquis; então espero pacientemente a primavera, regando, alimentando e cortando quando é preciso “minhas plantas”. Como Cecília Meirelles; ”Aprendi com as Primaveras a me deixar cortar, e a voltar sempre inteira.”
Feliz primavera à todos....

Rosa Marin Emed 


Rosinha, muito obrigado e um grande abraço a você.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Avida é a arte do encontro......

À direita meu tio Felipe, meu pai, Sr Joaquim, tio Beltran, tio Antonio(meu padrinho) e tio João. Meu pai tinha mais três irmãs;Maria(Toquero), Rosa e Luisa.

Hoje li em algum lugar o verso de Vinicius de Morais; “A vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida” ; me lembrei de um encontro inesperado e inusitado que aconteceu há quase 38 anos, no dia do meu casamento....

            Meus pais tiveram um longo e feliz casamento, uma relação que beirava a perfeição; muito unidos só se separaram com o inevitável da morte e por pouco tempo, pois um não suportou a ausência do outro. Meu pai foi o único namorado de minha mãe; no entanto ele quase uma década mais velho do que ela, teve pelo menos mais uma namorada, e eu a conheci.
      
    Casei num domingo ao meio dia, e aos moldes dos casamentos das moças casadoiras, das famílias da pequena Herculândia do início dos anos setenta. Igreja decorada e noiva idem; o toque de ousadia, e tinha que ter, foi a cor do vestido da noiva; amarelo. 
Padrinhos, convidados, bolo enorme e verdadeiro em toda sua extensão, docinhos miúdos e a famosa bala de côco enrolada em papel crepom e ...churrasco. Festa no barracão da olaria São José pertencente ao meu sogro, no Barro Preto. Convidados chegavam até em carrocerias de caminhão...desconfio que a cidade toda. Penetras? Claro! E muito bem recebidos! A própria família servia os convidados; soube que um não- convidado disse à um dos “garçons”:_”Me sirva bem porque eu sou primo do noivo”.E ouviu a resposta;_”Muito prazer; eu sou o tio do noivo”. E o tio Neno, serviu muito bem o primo desconhecido.  
O casamento civil aconteceu no dia anterior no cartório de Registro Civil Cesar Geres, mas os noivos só eram considerados casados depois da cerimônia religiosa. No sábado depois do "papel passado", houve uma recepção na casa dos meus pais para os padrinhos e familiares, resultando na casa repleta.
              Minha cunhada Lycia, irmã de meu marido, estava noiva de um jovem médico, hoje seu marido Fernando, que residia em Adamantina e trabalhava em Herculândia; ele e seus pais, Dona Francisca e o Sr Joaquim Jacinto, foram convidados para as duas recepções. Durante a recepção na casa dos meus pais, depois de apresentadas, Dona Francisca conversava animadamente com minha mãe em meio a algazarra da espanholada quando descobriram que ambas haviam morado na mesma cidade quando muito jovens, e seus maridos também; em Catanduva.
_” De que família são vocês”, perguntou Dona Francisca à minha mãe. 
_”Eu sou Gasquez e meu marido é Marin Viscaino” 
“Qual deles? “ pergunta Dona Francisca. 
_”O José” E Dona Francisca diz em alto e bom tom;
”O José Marin Viscaino foi meu namorado”
...Silêncio na sala.....Silêncio quebrado pela gargalhada de minha mãe que foi seguida por todos nós. E o melhor veio a seguir quando descobriram que o senhor Joaquim fora um grande amigo de meu pai e seus irmãos, em sua juventude. Houve uma enorme confraternização entre os amigos que não se viam há cerca de quarenta anos. Infelizmente nenhum deles está mais aqui pra confirmar esta história.

              O Poetinha estava certo....Avida é a arte do encontro......

Rosa Marin Emed


Rosinha, que o "Senhor" lhe pague. Muito obrigado e um grande abraço.

domingo, 11 de agosto de 2013

Rosinha, seu escrito FUI UM DE SEUS SONHOS é repleto de emoções, que Você tão bem soube transcrever para o papel.

Marcelo deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Fui um de seus sonhos": *

Rosinha, seu escrito FUI UM DE SEUS SONHOS é repleto de emoções, que Você tão bem soube transcrever para o papel.
Ao ler o trecho “Fiquei sozinha com meu pai, e depois de acariciar seu rosto e lhe falar por alguns minutos, me distrai por um instante, e antes de olhá-lo novamente, o silêncio e a intuição me disseram que ele havia partido para sempre; foi a última vez que o chamei..., e a única que ele não me respondeu..., foi um pai muito presente e amoroso. Alguns disseram que ele me esperou para se despedir; não duvido...”, não consegui impedir que meus olhos marejassem e não sentisse um nó na garganta! 

Palidamente senti parte da emoção que tomou conta do seu coração nesse momento tão fugaz, mas nem por isso menos profundo. É um segundo que separa dois mundos, dois padrões vibratórios tão próximos e tão distintos. É tudo uma questão de frequência, mas nem por isso menos importante ou menos marcante. Esse atimo de tempo confirma a sabedoria do caipira, dizendo que na vida só existem dois momentos marcantes: o da união e o da separação. O resto do tempo passamos anestesiados pela correria da vida. E a vida passa tão rápida...
Lembrei do poeta Elpídio dos Santos com seu poema musical, A Dor Da Saudade.* *
A dor da saudade / Quem é que não tem / Olhando o passado / Quem é que não sente / Saudade de alguém...
Minha mãe, nas nossas conversas, sempre repetia que na esquina do tempo mora a saudade. Vai daí que “quem é que não sente saudade de alguém”. 
Emmanuel, através da psicografia de Chico Xavier, deixou a página Palavras de Esperança, que considero lindíssima. “Se não admites a sobrevivência depois da morte, interroga aqueles que viram partir os entes mais caros.
Inquire os que afagaram as mãos geladas de pais afetuosos, nos últimos instantes do corpo físico; sonda a opinião das viúvas que abraçaram os esposos, na longa despedida, derramando as agonias do coração, no silêncio das lágrimas; informa-te com os homens sensíveis que sustentaram nos braços as companheiras emudecidas, tentando, em vão, renovar-lhes o hálito na hora extrema; procura a palavra das mães que fecharam os olhos dos próprios filhos, tombados inertes, nas primaveras da juventude ou nos brincos da infância...”

Deixo-lhe meus parabéns. Seu escrito descreve de maneira serena toda a dor da despedida, porta aberta para a saudade. Você conseguiu com muita propriedade, descrever o mesmo sentimento descrito por Emmanuel, em 02 de junho de 1961. 
Desculpe ter me alongado no comentário.


NdaR: 
* Não há foto do Marcelo na Net, por sua opção, razão pela qual encobri seu rosto da  tomada de 30 de outubro de 2011, juntamente com o Ton e Sr. Nê, replantando toco de uma Dracena em área pública, a qual hoje está robusta;
** Quem interpreta a canção do saudoso poeta luizense, Elpídio dos Santos, é o Mazzaropi, em seu filme Jeca Tatu, rodado  no ano de 1959 na Fazenda Coruputuba de Pindamonhangaba, a qual, infelizmente, nesta semana teve sua falência decretada. Por coincidência assisti este filme na semana que passou;

 Sou testemunha da emoção vivida pelo Marcelo quando se preparava para este comentário, pois me telefonou por volta das 22,00hs., quando eu estava em Taubaté, e percebi claramente sua voz embargada;
Feliz dia dos Pais para aqueles que têm a felicidade de ainda tê-los presentes.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Fui um de seus sonhos

Há pouco tempo num cruzeiro a caminho do Marrocos, ouvi anunciarem que estávamos passando pelo Estreito de Gibraltar, um canal que liga o Oceano Atlântico ao Mar Mediterrâneo. Gibraltar é uma pequena península localizada ao sul da península Ibérica, território britânico limitado ao norte por uma estreita fronteira terrestre com a Espanha. Também é conhecida como The Rock; O Rochedo. Quando anunciaram, senti uma velha e conhecida dor; a dor da saudade. Olhando para o lado de Gibraltar pude reconhecer como num dejà vu, o rochedo tantas vezes descrito por meu pai. Quase pude sentir as pedras que o então menino José, com apenas dez anos sentiu ferindo seus pés numa noite escura de outubro de 1923. Era um casal e seus oito filhos, entre eles meu pai, fugindo de uma guerra civil estúpida como são todas as guerras. Camponeses humildes, que de valioso tinham os filhos e os sonhos. Na Pedra dos Ingleses, como eles denominavam Gibraltar, depois de se aventurarem de Oria na região de Almeria na Espanha com o transporte que conseguiam, muitas vezes a pé, tomaram o vapor Córdoba no Porto de Gibraltar a 3 de Outubro de 1923, a caminho do Brasil e da realização de seus sonhos.

Aqui o menino José cresceu, e aprendeu a trabalhar e amar a planta que ele nunca vira em sua árida e montanhosa terra natal, com suas oliveiras e figueiras; a lavoura de café. Aqui ele conheceu e se casou com sua Maria, também espanhola, e tiveram cinco filhos. Viveram juntos por mais de sessenta anos, numa relação de afeto e companheirismo que beirava a perfeição; só se separaram com o inevitável da morte, mas por pouco tempo; Maria se juntou a ele 10 meses depois.

Dizem que espanhol é bravo, teimoso, briguento; meu pai foi a pessoa mais doce, mais acolhedora e tranqüila que conheci. Jamais alterou a voz ao falar comigo, nenhuma rispidez ou palmada. Dizem meus irmãos mais velhos que com eles houve um pouco mais de rigor; talvez tenha sido mais condescendente com os dois filhos menores e temporões e principalmente com a única filha, que nasceu quando ele já tinha 40 anos. Amava seu trabalho de uma forma comovente; já casada e morando distante, toda vez que ia visitá-los passeava com ele pelo cafezal. Seus olhos brilhavam e ainda hoje quando penso nele quase sinto o perfume das flores brancas que enfeitavam o verde dos pés de café durante a florada. Amava sua família incondicionalmente; trabalhou muito com o único objetivo de nos proporcionar conforto e um futuro sem as dificuldades que ele tão bem conhecia. Meu pai nunca quis retornar à Espanha; esta era a sua terra...Mas em algum canto de seu coração havia uma dor inevitável que eu pude presenciar. A primeira vez que estive na Espanha, quando ele ainda era vivo, fui até sua cidade e de lá lhe telefonei; e ele chorou...Minha filha Luciana dançava flamenco, e ele teve oportunidade de vê-la dançando e também chorou...

Meu pai partiu aos poucos... Começou a partir quando a vitalidade começou abandoná-lo, estando com mais de oitenta e cinco anos e aparentando muito menos. Quando a lida com seu amado cafezal se tornou impossível, ele partiu mais um pouco...A doença e a depressão melancólica pela perda de energia que acomete o idoso, o levou mais um tanto. Com o agravamento de sua doença e com mais de noventa anos foi hospitalizado. Todos os dias eu falava várias vezes com meus irmãos que se recusavam a enxergar que ele estava partindo definitivamente e me tranqüilizavam, até o dia em que meu sobrinho Sandro atendeu o telefone e me informou que meu pai estava já inconsciente há algum tempo. Viajamos imediatamente e chegamos no hospital tarde da noite; meus irmãos quiseram pernoitar e me mandaram descansar. No dia seguinte muito cedo fui para o hospital e disse a eles que poderiam ir pra casa e voltarem mais tarde. Fiquei sozinha com meu pai, e depois de acariciar seu rosto e lhe falar por alguns minutos, me distrai por um instante, e antes de olhá-lo novamente, o silêncio e a intuição me disseram que ele havia partido para sempre; foi a última vez que o chamei....e a única que ele não me respondeu.....foi um pai muito presente e amoroso. Alguns disseram que ele me esperou para se despedir; não duvido....Partiu no dia 13 de junho de 2004; dois dias antes do meu aniversário de 53 anos.

Há algum tempo por insistência de minha filha Fernanda, requisitei minha cidadania espanhola. Sem muito entusiasmo levei a documentação necessária ao consulado espanhol em São Paulo, e quando disse ao funcionário que estava solicitando a cidadania ele me disse; _” A senhora está recuperando sua cidadania; pelas leis espanholas a cidadania é dada pelo sangue, a senhora a perdeu aos 18 anos quando não fez sua documentação, mas recuperá-la é um direito seu”. Meus olhos se encheram de lágrimas pois não esperava essa herança que pude passar aos meus filhos e poderei passar aos meus netos; a cidadania Espanhola.

Meu pai foi um homem feliz e realizou seus sonhos; um trabalho honesto que ele amava, uma boa esposa...e linda, bons filhos, treze netos amorosos, conheceu oito bisnetos . Fui um de seus sonhos; isso já me basta pra honrá-lo por toda minha vida.

Rosa Marin Emed


      Rosinha, muito obrigado. Um grande abraço.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Alguém há de nos ouvir.....

A policia prendeu o bando que assaltou os trabalhadores bolivianos, exceto o assassino que apertou o gatilho. Qualquer palavra de indignação parece pequena diante da dor daqueles pais. Não há nada mais definitivo e doloroso do que a morte de uma pessoa querida... Não é natural que os filhos morram antes que os pais; a dor dessa mãe que teve o filho assassinado em seus braços não cabe em nenhuma frase de consolo ou solidariedade...

”Quando eles de longe viram, não o reconheceram, e eles levantaram suas vozes e choraram. Eles se assentaram com eles no chão  durante sete dias e sete noites, e nenhum deles lhe disse uma palavra sequer, porque eles viram que seu sofrimento era muito grande”(Jó 2.13)

Talvez seja irracional, mas é inevitável meu sentimento de vergonha diante da família do pequeno Brayan; vergonha pelos seus sonhos destruídos, seus bens roubados e principalmente por haverem arrancado de seus braços, seu mais caro bem e que moeda alguma pode pagar. Vergonha por terem acreditado e confiado que aqui poderiam ter uma vida digna e feliz. Vergonha pelas leis frouxas e obsoletas, incompatíveis com nossa atual realidade, e que vigoram em nosso país. Não foram só gatilhos disparados que deixaram tantos pais enlutados e filhos órfãos; a impunidade,  a morosidade das leis, a falta de investimentos na segurança também são culpados. Sei que punições severas não recuperam sociopatas sem piedade e de corações gelados, mas certamente os fariam temer as conseqüências de seus atos.

Havia um menor no bando?! Menor era Bryan que não conseguiu conter o medo e o choro e implorou por viver. Os maiores do bando provavelmente também foram menores infratores e impunes. Há um drama social e familiar por traz de cada um deles? Existem dramas sociais por toda parte; assassinar uma criança nos braços da mãe só pode ser obra de um assassino  cuja crueldade faz parte de sua natureza eque não merece viver em sociedade..
Calar diante de tamanha monstruosidade é nos tornaremos cúmplices dessa e de outras mortes violentas de inocentes e pessoas do bem. A sensação de impotência e revolta é de todos; eu não conheço uma só pessoa  que não tenha alguém da família que um dia sofreu a humilhação de ficar a mercê de bandidos de forma mais ou menos violenta....

”Deus conceda-me serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar aquelas que posso e sabedoria para reconhecer a diferença entre elas.”

Calar é compactuar com a indiferença, perversidade e o mal; mesmo que gritemos como loucos para ouvidos moucos , até ficarmos roucos....
Alguém há de nos ouvir.....

Rosa Marin Emed

Rosa Marin Emed, muito agradecido por externar a nossa indignação.

sábado, 15 de junho de 2013

Quando eu desfiz sessenta anos....

               
“A vida é uns deveres que nós trouxemos pra fazer em casa.
                Quando se vê, já são seis horas!
                Quando se vê, já é sexta feira,
                Quando se vê, passaram 60 anos
                Agora é tarde demais pra ser reprovado....
                E se me dessem, um dia, uma outra oportunidade,
                Eu nem olhava o relógio.
                Seguia sempre, sempre em frente
                E iria jogando pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas...
                                   “ O tempo”- Mario Quintana
    
             Quando se vê, passaram, sessenta anos.........
             Quando NEM se vê passaram sessenta e um, sessenta e dois.....E ninguém me avisou que seria tão rápido! Acho graça quando alguém com menos de trinta diz que o tempo passa rápido, quando ainda estão sendo lentamente levados pela mãe natureza. Muito breve tomarão uma condução cada vez mais rápida, até a idade em que parecemos estar num trem de alta velocidade em que as estações se sucedem com a rapidez de um corisco, mas que podemos conduzir.... Alguns voltam a caminhar lentamente, e penosamente empurram a mãe natureza.
            Ruben Alves diz que as crianças têm anões(anos grandes), são os velhos que têm aninhos....passam tão rápidos que parecem mínimos. Ele diz também sobre fazer aniversário: “Quando eu desfiz sessenta anos....Desfiz: é a forma correta de dizer, porque esses sessenta anos são os anos que não tenho mais. Quantos eu tenho, só Deus sabe...”.  Ele também diz sobre os anos que ainda temos: ­”Resta quanto tempo?Não sei. O relógio da vida não tem ponteiros. Só se ouve o tiquetaque...Só posso dizer Carpe Diem, colha o dia como um morango vermelho que cresce à beira do abismo; é o que tento fazer”. Eu também.....
            De presente de aniversário peço à Deus saúde física e mental pra continuar achando o tempo rápido e a vida boa, embora eu saiba que como na música de Toquinho...”Vamos todos, numa linda passarela de uma aquarela, que um dia enfim...descolorirá...”
           No espelho o numero 62, deveria ter como toda imagem seu reflexo invertido em 26...não sei onde anda o 26...só vejo 62. Isso me faz lembrar um livro que li há muitos anos; “Retrato de Dorian Gray”. Parece que recentemente, um outro Gray de nome Christian em tons de cinza, anda fazendo alvoroço... deve ser parente daquele....O Gray do retrato é de Oscar Wild, escrito e publicado no final do século retrasado. Dorian, que não era cinza mas também era jovem, bonito e vaidoso, se recusando envelhecer fez um pacto em que daria sua alma para continuar com o viço e a beleza da juventude; e  assim aconteceu. Todos sentiram falta na sala de sua casa do belíssimo quadro, em que fora pintado o retrato do moço garboso. Ninguém sabia que escondido num quarto, trancado à sete chaves, o retrato envelhecia e enfeava  pelo tempo e pelas maldades de seu retratado. Dorian Gray se sentindo poderoso com sua juventude eterna, exatamente como muitos poderosos da História nem tão belos e nem tão jovens, cometeu toda sorte de atrocidades, transferidas como sua real aparência, para o quadro.
           Não me lembro com quem foi feito o tal pacto de Dorian, o Gray antigo, mas só pode ter sido com aquele que gosta de trapacear com os incautos; ele mesmo, aquele que se travestiu de serpente e ofereceu à Eva a maçã proibida. Maçã é fruta pra quem está doente; na minha terra e quando os “anões” eram lentos, havia um senhor que passava vendendo maçãs nas ruas da pequena Herculândia: ”Maaaaaaçã, olha a maçã...” completamente inofensiva.. e sem gosto... Não sei por que Eva não resistiu; e dizem que no Jardim do Eden, onde ela morava, havia um pomar extraordinário .... se fosse uma manga suculenta, um caqui.... Se fossem uvas...mas as maduras ao alcance das mãos, não as verdes, aquelas que a raposa cobiçou na fábula do grego Esopo. Até o abacaxi me parece mais atraente apesar da casca; ou quem sabe a casca espinhosa o torne mais desafiador...E a maçã continuou no imaginário da humanidade... houve ainda aquela do conto dos Irmãos Grimm, em que uma bruxa malvada ofereceu a maçã envenenada à doce princesa. Parece que as maçãs não fazem muito bem às mulheres...Será???!!!Ou é uma invenção dos homens???!!! Acredito que Deus está ocupado demais com tantas coisas mais importantes do que com as frutas que comemos ou deixamos de comer, desde que não sejam envenenadas, nem furtadas do pomar do vizinho....Essas podem no mínimo, provocar uma grande confusão...
          Depois da salada de frutas e retornando ao Dorian Gray, quem leu o livro sabe que o belo jovem-idoso acaba muito mal....  Meu retrato de dezoito anos não envelheceu nadinha nos 44 anos que se seguiram, mas meu espelho reflete exatamente os meus 62, embora com muita energia pra descascar os abacaxis que eventualmente surgirem, e muita alegria e prazer pra saborear as mangas, os caquis, as uvas, até as maçãs... e principalmente os anos que me restam. Reconheço que eu aceitaria uma ajudazinha; não do trapaceador, mas divina...ou mágica....ou quem sabe um acordo, como na música de Maria Bethânia; “.....Compositor dos destinos, tambor de todos os ritmos....tempo, tempo, tempo...entro num acordo contigo....peço-te o prazer legítimo, e o movimento preciso...Quando o tempo for propício......eu espalhe benefícios....Tempo, tempo, tempo.....”
   Rosa Marin Emed.



Obrigado é pouco, para externar a gratidão, pela Rosinha nos brindar com suas maravilhosas crônicas. Um grande abraço Rosinha.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

QUERMESSES

Na minha cidade natal, ali pelos anos 60 e 70, eu costumava frequentar as quermesses....Quermesses são festas realizadas na paróquia de pequenas cidades do interior de São Paulo, onde se montam barracas de comidas e bebidas típicas da região e as famílias se encontram e confraternizam; não sei se em Herculândia elas ainda acontecem. Havia um auto-falante onde “fulano oferece a musica tal pra sicrana”, e os correio elegantes, que são bilhetinhos anônimos ou não, trocados entre os jovens...Brega?!!!Mas era uma delícia... e muitos namoros começavam assim....ou no escurinho do cinema, no nosso Cine São Luiz. 

No dia 29 de maio de 1964, quando eu ainda não tinha treze anos, depois de muita insistência, permiti que um garoto se sentasse ao meu lado no cinema; era o sinal do começo de namoro. O filme era “Vera Cruz”; (NR;assistam-no AQUI) um western estrelado por Burt Lancaster, Sarita Montiel, Gary Cooper e Charles Bronson; comportadamente me sentei antes que as luzes se apagassem, e reservei um lugar ao meu lado....As luzes se apagaram e o meu pretendente se sentou....com outra menina!!!!De onde eu estava podia vê-los....Na fila da frente sentou outro garoto que passou o filme todo olhando pra trás e rindo...

No dia seguinte, ainda curtindo minha dor de cotovelo, lá estava eu na quermesse quando ouço...”Alguém oferece a musica de Sergio Endrigo,” Io che amo solo te” (AQUI) para Rosinha” Opa!!!! Nos últimos acordes ...” Io Che amo solo te, Io me fermerò e ti regalarò quel che resta della mia gioventù...” recebo um correio elegante: “Você está comprometida?” “Não; porque?!” “Gostaria de se comprometer? Eu sou aquele do filme Vera Cruz, sentado na tua frente” Como eu não sabia se o menino da frente passara o filme rindo DE mim ou PARA mim, fiquei em duvida entre um sonoro não ou um acanhado sim...Mas aqueles olhos verdes.....pronto; respondi que sim!!!!

No dia seguinte, Cine São Luiz!!! Como gato escaldado tem medo de água fria, não guardei o lugar e pensei com meus botões;_se ele vier ninguém há de sentar ao meu lado....e ele foi e juntos assistimos “El Cid”; (AQUI) drama épico com Charlton Heston e Sofia Loren. O que não sabíamos é que um dos meus quatro irmãos, o Beltran, estava sentado atrás de nós....mas essa é outra história....Desde então não nos separamos mais, e só muito tempo depois eu soube que o outro garoto que “paquerava” as duas, recebeu o sim da outra menina no mesmo dia, e foi se aconselhar com seu amigo, o menino dos olhos verdes, que prontamente o aconselhou a ir com a outra, dizendo que eu era mimada, metida e feia, não sei se nessa ordem. E que eu tinha quatro irmãos que eram umas feras....

O outro menino? O namoro acabou, e alguns anos depois ele e a família mudaram de Herculândia. Quase 40 anos depois, passando por Curitiba, esteve em nossa casa e demos boas risadas relembrando essa história. O menino de olhos verdes continuou meu namorado....e hoje comemoramos 49 anos de namoro....Vivemos e aprendemos muita coisa juntos, só não aprendemos dançar....apesar das inúmeras “brincadeiras dançantes” ao som de algum LP que rodava na eletrola de alguém, na sala da casa de algum amigo, ou dos bailes no “Herculândia Clube” ao som de Nelson e sua Orquestra Tupã, ou Leopoldo e Orquestra Tupã. Ainda é tempo de aprender.....de viver e de namorar.
Rosa Marin Emed.

Olá Rosinha, perdão pela intromissão, porém, não resisti em não linkar tão importantes referências em sua vida. Se preferir, desfaço.
Muitíssimo obrigado e um grande abraço.

domingo, 12 de maio de 2013

Mãe não é só uma


Mãe é uma só...Será??!!Eu tive várias....em uma.Tive a mãe  que me deu vida e afeto. Tanto afeto que à seus olhos os filhos pareciam perfeitos, ou não....talvez soubesse dos seus defeitos, mas os amava tanto que os defeitos pareciam...perfeitos.
         Tive a mãe disciplinadora; como filha única em meio à quatro irmãos, comigo os cuidados eram redobrados...por todos eles. Eu era pouco mais que uma menina quando nos meados dos anos 60 Mary Quant inventa a mini saia, e a alta e magra modelo Twiggy exibe para o mundo suas longas e finas pernas, e a moda pega....menos em casa. O recurso era sair com a saia abaixo dos joelhos, e no portão dobrar e dobrar o cós. A medida era o cumprimento do braço, e assim havia muitas dobras. E eu que de Twiggy não tinha nada, por bom tempo dobrei e desdobrei cós de saias no portão; até que um dia esqueci de desdobrar...Mãe Maria disciplinadora de mãos na cintura dispara. _ “Menina que saia é essa?” e olhava pra saia que ela mesmo havia costurado...era excelente costureira. Por sorte estava em casa, minha avó-mãe, Joana Gasquez; pra quem pedi socorro com os olhos e que retrucou;_ “Nena, só você usa saias curtas?” Explicado que todas as jovens de minha idade também se vestiam assim, minha avó muda o alvo;_ “Maria, o que está na moda não incomoda”. No dia seguinte minhas saias foram encurtadas, não na altura do braço; tivemos uma espécie de negociação e chegamos a um consenso. Quando minhas filhas eram adolescentes procurava me informar sobre “o que estava na moda”, e muitas vezes também “negociamos”. Me casei com vestido de noiva na cor amarela; minha mãe disciplinadora não gostou muito da novidade e novamente minha avó Joana me socorreu; “A cor do vestido é uma invenção dos homens; Deus vai abençoar mesmo que ela se vista de vermelho”. Penso que minha mãe deve ter se apavorado com a sugestão do vermelho e prontamente aceitou o amarelo. Minha avó adoentada não pode assistir o casamento, mas antes de ir para a cerimônia fui dar-lhe um abraço e ela me disse; _”Você está linda de noiva ....e de amarelo”. Até hoje antes de entender o que quer que seja, sem maniqueísmo procuro enxergar todas as nuances da vida como nuances de cores, e me pergunto se Deus abençoaria ....
        Havia também a mãe trabalhadora; dona de casa, se ocupava o dia todo; adorava cozinhar...seu bife era imbatível....achávamos que era a frigideira, mas minha cunhada Sonia que a “herdou” (só quis a frigideira) diz que não fica igual. Porém exagerava na quantidade e quando nos preocupávamos com seu cansaço ela dizia; “Pronto se hace lo poco que lo mucho”. Até hoje quando penso que não  darei conta do que deve feito; pelo tempo, cansaço ou quantidade, também penso que “pronto se hace”.
       Em minha casa, certos assuntos eram proibidos, como na maioria dos lares daquele tempo; assim Maria fora criada e assim nos criou. Quando seus cabelos começaram  ficar da cor de neve, a rigidez foi deixando espaço para o novo, que ela aceitava como só pessoas evoluídas o fazem; com cautela, justiça e sabedoria; assim era a Mãe Sabedoria.
       Dia desses li uma frase atribuída ao nosso novo Papa argentino,  Francisco; argentino, mas também nosso; _ “Se Deus,na criação, correu o risco de nos fazer livres, quem sou eu pra me meter?” Há quase quarenta anos, ouvi de minha mãe, mulher simples que mal sabia escrever, lia melhor porque gostava de se informar, uma verdadeira lição de cidadania e respeito ao diferente. “Se não somos todos exatamente iguais, e nossas diferenças não fazem mal ao próximo, todos devemos ser respeitados igualmente, com nossas diferenças”. Desde então, diante de qualquer estranhamento me pergunto; -Faz mal à alguém?
      Tive outras mães; Mãe amiga, confidente, conselheira....só não tive mãe-filha. Ela partiu quando ainda estava lúcida e independente, como sempre disse que queria; ”sem dar trabalho pra ninguém”, num final de semana pra não perderem dia de serviço....Os médicos disseram que foi o coração, eu acho que foi a saudade...ela não suportou a ausência de meu pai que partira dez meses antes.
      Quando eu estava no oitavo mês de gestação do meu primeiro filho, meu marido me transmitiu a notícia do falecimento de minha avó Joana.Diante do meu desespero ele pediu;- “Acalme-se; pense no bebê.”Foi o que fiz; apesar da enorme tristeza me acalmei.Vinte e oito anos depois, meu marido novamente foi incumbido de me transmitir outra triste notícia; minha mãe havia partido; e novamente ante meu desespero e o olhar de minhas filhas ele me pede; “Acalme-se, não assuste a Luciana, pense no bebê”. Esperávamos a chegada do meu primeiro neto. Vidas que se vão e vidas que chegam.
 Não tenho mais nenhuma dessas mães, mas ainda tenho muito viva, a Mãe Saudade.

Rosa Marin Emed.

Rosinha, muito obrigado, um grande abraço e feliz dia das Mães.

sábado, 4 de maio de 2013

Viagem

Vou confessar um dos meus defeitos.....Embora eu seja normalmente bem humorada e avessa à “pitis”, meu humor de manhã fica sujeito à variações até o meu desjejum. Parece que só acordo realmente depois do café...café mesmo... pode até ser como na música de Noel Rosa...”uma boa média que não seja requentada, um pão bem quente com manteiga à beça..” Filha de cafeicultor desconfio ser cafeína dependente...só pela manhã..... 


Pois bem; em nossa viagem enquanto estivemos em Gênova tomávamos nosso café da manhã em uma cafeteria próxima do hotel e íamos em seguida para nossos passeios, normalmente de trem.

 No dia que visitamos Vernazza, Manarola e Monterroso, saímos bem cedo e à minha revelia o Luiz disse que tomaríamos café na própria plataforma da estação onde esperaríamos o trem. 



 Lá chegando percebemos que justo nesse dia nossa plataforma era a do meio, pra ir até as laterais onde havia cafés teríamos que dar uma volta enorme e poderíamos perder o comboio; o mau humor já estava instalado...juro que não abri a boca mas como ele diz...”nem precisava...”

Repentinamente ante minha surpresa meu marido rigorosamente cumpridor de normas e determinações, apesar dos avisos 


“Vietato attravesare i bonari” e “Do not cross the railway line” pula nos trilhos, atravessa a linha e volta se equilibrando com “uma boa media” e um fogazza bem quente. O trem chegou logo em seguida. Me contive até partirmos , mas apesar da gratidão e do enorme carinho, a vontade de rir da cena insólita foi incontrolável...o mau humor foi transferido pra ele, mas durou pouco e depois rimos juntos....

Rosa Marin Emed.

Rosinha, muito obrigado por esta bem humorada crônica sobre a viagem de vocês. Um grande abraço, extensivo ao Dr. Luiz.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

VIOLÊNCIA

Foto Estadão, Nilton Fukuda
Viriatro Gomes da Silva e Risoleide Moutinho de Souza, pais da Dra. Cinthya Magaly Moutinho de Souza
VIOLÊNCIA

“Deus conceda-me serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar aquelas que posso, e sabedoria para reconhecer a diferença entre elas”. 

Ontem assistindo televisão, um programa sensacionalista ou não, me acordou da “negação” que até por um mecanismo de defesa muitas vezes fazemos diante da crescente violência e de sua comparsa; a impunidade. Tenho uma filha dentista e inevitavelmente me coloquei no lugar dos pais da profissional brutalmente assassinada por uma quadrilha que agia em consultórios...e doeu muito... 

Todos nós sabemos, até uma criança de sete anos, a dor de uma queimadura num dedo; os assassinos também sabem, inclusive o “menor” de dezessete anos. Menor pra mim é a criança que precisa de cuidados porque ainda não aprendeu que fogo queima e pode causar sofrimento e morte para si e para os outros; um rapaz de 17, 16, 15....já sabe disso e de muito mais. Existe um drama social na história de cada um deles? Existem dramas sociais por toda parte e nem todos saem por aí queimando e matando. Esse jogo de culpa não deve e não pode continuar sendo usado. Aquela jovem que matou os pais e que hoje se diz pastora, tinha excelente condição familiar e sócio-econômica...Devemos sim ajudar jovens que querem ser ajudados, que têm consciência do mal e empatia pelo próximo; inútil gastarmos recursos e energia com psicopatas sem piedade e de corações gelados. Tratá-los como menores inocentes é compactuar com a perversidade e o mal; certamente os criminosos “maiores” também foram “menores” cruéis e impunes, pra eles não existe sentimento de culpa nem arrependimento; embora sejam verdadeiros artistas na arte de dissimular se fazendo de vítimas e candidamente arrependidos. 

Muitos podem discordar mas não acredito em “cura” para a psicopatia, embora nem todo psicopata se torne assassino a crueldade é de sua natureza; não acredito que seja uma doença. Alguns poucos anos na prisão ou qualquer tipo de instituição, mesmo que fosse na Suécia, não faria deles pessoas de bem; ao final de penas curtas, e elas sempre são, continuarão sua saga de violências. Não sei se penas mais duras resolveriam; mas com certeza a sensação de impunidade é um componente à mais para o aumento da criminalidade. 

Se continuarmos calados diante de leis frouxas que privilegiam bandidos, principalmente menores, seremos cúmplices de outras mortes...de inocentes e pessoas de bem.

Rosa Marin Emed.

Rosinha, muito obrigado. Pena que seu retorno seja marcado por este infausto acontecimento. Um grande abraço a você.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Desejo deixar pedaços de minha alma para os meus herdeiros



 Meus netos tiveram o privilégio de conhecer o bisavô paterno, e como todos que o conheceram, dele não se esquecem. Meu sogro ficou conosco por algum tempo enquanto lutava por viver; até que se rendeu e se foi, deixando imensa saudade em todos inclusive nos pequenos. Dia desses, dia de tomar vacina, Malu de quatro anos pergunta ao João de seis; _” Porque “tem” que tomar vacina?” João do alto de sua sabedoria responde:_”Pra não ficar doente, se não tomar pode até morrer”. Depois de alguns segundos, Malu indignada retruca: “Então porque não deram vacina pro biso?!!!” Entendi que “Seu” Zinho continua vivo na memória e na saudade dos bisnetos...se você quiser lições de amor, ouça as crianças. E como nos versos de Adelia Prado;_” O que a memória ama, fica eterno”.
          De outra feita, Malu (sempre ela) me perguntou; _”Vovó, onde está tua mãe?”Completamente desarmada, respondi o que os adultos costumam responder pra encerrar tal assunto....mas não com Malu....._” Minha mamãe está no céu” e ela responde:_ “ Sei....ela morreu...... mas quando é que ela vai voltar?” Atordoada mudei de assunto; não saberia lhe explicar que a bisa já voltou...voltou no seu olhar curioso, na sensibilidade, nos seus olhos “de jabuticaba” e principalmente na doçura que encanta....
         Muitas vezes ouvi minha mãe fazer uma espécie de acordo com Deus em relação aos netos;-“Será que os verei crescer, formar, casar...?”E ela viu a maioria deles formar, casar, e alguns lhe deram bisnetos que ela conheceu. Prometeu à cada neta uma colcha de crochê que ela fazia muito bem, depois de já ter feito a minha e das quatro noras ; cumpriu a promessa como uma missão antes de partir....Quando aguardávamos o nascimento do meu primeiro neto ela recomeçou;_ “Será que Deus permitirá que eu o conheça?” Lamentavelmente ela partiu antes do nascimento do João, ainda hoje tenho uma vontade irracional de contar pra ela cada graça dos meus netos, cada pergunta “matadora” da Malu.
          Percebo que chegou minha vez de negociar com Deus para ver meus netos crescerem, se formarem......Não sei fazer crochê, mas quero deixar pra eles o meu melhor, o que eu gosto em mim e quero que permaneça vivo; Como Rubem Alves; ...”desejo deixar pedaços de minha alma para os meus herdeiros. E a minha alma é feita de poesia e música”. Quero deixar pra meus netos o que aprendi com eles;_essa imensa capacidade de amar. Quero deixar também, humildade, compaixão, retidão, que aprendi com aquela artesã que fazia tão bem as colchas de crochê.....

Rosa Marin Emed.

...estarei fora do dia 4 ao dia 28 de abril e espero voltar com novas idéias para o "nosso" Ecoeantigos. Um grande abraço. 
Rosinha.


Rosinha, muito obrigado, boa viagem e um grande abraço.

terça-feira, 12 de março de 2013

SÁBIAS


   Sempre que vejo pés de babosa, me lembro de minha mãe. Dizia ela que eu nasci sem um fiapo de cabelo, desconfio que vem daí meu apelido familiar de Nena, pra não confundirem a Nena menina careca, com o nenê menino. Pois bem, o tempo passava e minha careca brilhava, minha mãe desesperada recorreu à internet da época; cunhadas comadres vizinhas amigas (assim mesmo, sem virgulas, pois se trata de um único site)... a sugestão foi unânime; babosa na careca da Nena. Anos mais tarde, minha mãe creditava meus cabelos fartos e brilhantes à babosa usada nos meus primeiros meses de vida. Realmente meus cabelos não fizeram parte da minha lista de reclamações e insatisfações juvenis. 
Mas...o tempo passou e apareceram os primeiros fios do intrometido, atrevido, inconveniente, insolente e arrepiado cabelo branco. Lutei bravamente; cada fio branco era arrancado; até que entendi que isso me levaria ao meu estado original de carequice. Recomendaram as mechas que se faz colocando uma touca e pinçando alguns fios; durante o procedimento você fica parecendo uma enlouquecida Medusa, aquela da mitologia grega. Aprendi com o tempo, à ficar de costas para o espelho como forma de evitar o rebaixamento da auto estima durante o procedimento. Mais alguns anos e as mechas se tornaram insuficientes. Têm mulheres que ficam lindas com o cabelo branco bem curtinho; infelizmente não é o meu caso, então parti para a tintura, ou melhor, para o "tingimento", que lembra "fingimento"; a gente finge que não tem brancos,finge que é loira.
Minhas filhas têm cabelos longos e lindos, desconfio que ocorreu uma espécie de mutação, cujo agente mutagênico foi a minha babosa.O tempo apagou da minha memória as sessões de aplicação da gosma da babosa mas não devia ser mais desconfortável do que na mudança dos brancos, a passagem pela Medusa até o resultado final. Quando vejo no mercado produtos para os cabelos à base de aloe vera, nome sofisticado para a velha babosa, percebo como minha mãe e suas cunhadas-amigas foram sábias; 
SÁBIAS em viver com simplicidade e criatividade, 
SÁBIAS mães amorosas e disciplinadoras, 
SÁBIAS companheiras, 
SÁBIAS mulheres...que também se enfeitavam.

Rosa Marin Emed.


Rosinha, obrigadíssimo e um grande abraço a você.